segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Tapete Verde
Durma-se com um barulho desse
Fala muito
Ouve pouco
Faz poesia sobre o jogo
Dez pra dois
Cinco pra um
Quero quatro na mesa
Ouro na cabeça
Estica a ficha
Corre o tempo
Sem nenhum receio
Cara feia não põe medo
Olho de vidro
Ali do lado
Em terra de cego
Quem tem dama é rei
Vim pra fazer aposta
E não fortuna
Pra fazer história
Não escrever o futuro
Pra fazer a festa
Que me importa a glória?
Invisto a grana em vida
sem desperdício
Se vier uma dose forte
É pura sorte
Sete copas na cachola
Espadas rolam cabeças a prêmio
Em um tapete verde as vezes
Sofrem os gênios com cartas sem escola
Só conta os meses
segunda-feira, 16 de julho de 2012
O esquecimento é o que acontece – Cartola e Nietzsche se encontram em um jardim
Gal acontece
“Não poderia haver felicidade,
jovialidade, esperança, orgulho, presente, sem o esquecimento.” Assim
concluiu Nietzsche na segunda dissertação de
A Genealogia da Moral. O esquecimento, ressalta o filósofo bigodudo, não é
uma consequência passiva de um lapso memorial. O esquecer, pelo contrário, é
uma atitude afirmativa necessária para uma existência plenamente autêntica. O
oposto dessa pulsação de esquecimento, fiadora da felicidade, é a consciência
humana, base da moralidade. Simplificadamente, a consciência é o pensamento
mais profundo do individuo, particularmente concernente ao sentido virtual de
certo e errado. Nietzsche, em A
genealogia, associa o surgimento da consciência com inicio da estrutura
social e da criação de leis, que por sua vez dependem da repressão do instinto
e do desenvolvimento de um tipo especifico de racionalidade: “finalmente tomamos partidos contra nós
mesmos, ficamos doentes e nos punimos.” Nessa cadeia social, a consciência é
a cela cujo carcereiro e o preso é a mesma pessoa, o indivíduo.
Acontece
Esquece o nosso amor
Vê se esquece.
Porque tudo na vida acontece
E acontece que eu já não sei mais amar.
Vai sofrer, vai chorar
Porque tudo na vida acontece
E acontece que eu já não sei mais amar.
Vai sofrer, vai chorar
E você não merece,
Mas isso acontece.
Mas isso acontece.
Alguns versos em determinadas estruturas poéticas se
salientam mais que os outros para uma compreensão apolínea do texto. No caso de
Acontece, começamos pelos últimos
versos do par de estrofes: a primeira termina com “mas isso acontece”, mostrando resignação perante o inevitável fardo
da vida; a segunda estrofe, negando, conclui “isso não acontece”, definido a partir da reconhecida, de maneira fria
e dura, impossibilidade de atuar. O primeiro verso oferece, o segundo quase imperativamente
exige a aceitação do esquecimento: “Vê se
esquece” E por que esquecer, Cartola? “Porque
tudo na vida acontece”.
Enquanto o drama da primeira estrofe reside no reconhecimento
melancólico da incapacidade do amante “E
acontece que eu já não sei mais amar”, na segunda o conflito se deve a
outra potencialidade negada, não por incapacidade, mas por vontade “Se eu ainda pudesse fingir que te amo”. A
resultante da primeira é o sofrimento passivo: “Vai sofrer, vai chorar”, o desenrolar da segunda, novamente, é uma resistência
da vontade “Mas não posso, não devo
fazê-lo”
As estrofes em dois resumos minimalistas anti-poético poderiam
ser, a primeira: “Esqueça e aceite, tudo acontece até o que não quero e é
injusto”. A segunda, no mesmo estilo, seria: “Poder o que eu não quero não
acontece”. Com uma dose certa de beleza, seriam dois aforismos bem Nietzscheano.
Acontece
que o meu coração ficou frio
E o nosso ninho de amor está vazio.
Se eu ainda pudesse fingir que te amo,
Ah, se eu pudesse
Mas não posso, não devo fazê-lo,
Isso não acontece.
E o nosso ninho de amor está vazio.
Se eu ainda pudesse fingir que te amo,
Ah, se eu pudesse
Mas não posso, não devo fazê-lo,
Isso não acontece.
Não só para indivíduos, a
criação cultural de uma sociedade estaria ligada a capacidade desta conseguir
superar a história, ou seja, esquecer para cultivar o novo. Na metade final do século XIX, em meio a
unificação alemã, borbulhava o debate em torno da necessidade da história para
o fortalecimento cultural de uma nação e de um povo. A opinião de Nietzsche era
uma das mais polêmicas: a história servia para uma educação limitada e
enciclopédica, engessando decisivamente a cultura, como “um crocodilo a engolir a um antílope”. O esquecimento, a ignorância
histórica proposital, levaria a uma cultura radicalmente inovadora, que seria
verdadeiramente atraente para o novo, para a nova geração, para a juventude. Do
contrário o desinteresse cultural triunfaria, o “coração ficaria frio”. Não só isso, Nietzsche alertava que as
consequências de uma absorção cultural exterior - sem o esquecimento permitindo
o acontecimento – seriam imprevisíveis. A história alemã no século XX,
ironicamente, deu razão ao bigode. Faltou esquecimento.
“Um poeta poderia dizer que Deus instalou o esquecimento como guardião da soleira do templo da dignidade humana” Nietzsche em Humano, demasiado Humano
Nietzsche em o Nascimento da Tragédia, primeiro dos seus livros, compara o
surgimento do teatro entre os gregos como o “desabrochar das rosas em uma noite espinhos”. A medida em que vai
escrevendo, Nietzsche vai confrontando a si mesmo e se refazendo, sem nunca, no
entanto abandonar as floridas metáforas. Em Aurora,
o alemão compara o trabalho de um filosofo diante da história com de um
jardineiro: A partir das raízes difusas e horrendas, chega-se a sublime
harmonia das pétalas de rosas. Cartola sintetizou parte desse pensamento em
outra canção igualmente brilhante, através do singelo e poderoso verso: “As rosas não falam”. De longe passeando
pelo mesmo jardim, com olhar atento e ar distraído para as mesmas flores, enquanto
ajeita o bigode do futuro, o filósofo observaria: “Certamente elas não falam, as rosas superam”
terça-feira, 3 de julho de 2012
2 de Julho – A independência da Bahia contra o histórico riocentrismo: duas guerreiras na Praia de Ipanema.
Um dos mais danosos vícios do
estudo histórico do Brasil é o “sudestecentrismo”, focado especificamente em um
“riocentrismo”. Evidentemente, a cidade do Rio de Janeiro ocupa um lugar de
destaque na história brasileira, em especial do desembarque da corte na Praça
XV a inauguração de Brasília, contudo esse peso carece de relativização. As conquistas políticas ocorridas no século
XIX, independência, proclamação da República e abolição da escravidão foram
logradas apesar dos seguidos governos autoritários, sediados primeiro na Quinta
da Boa Vista e depois no Palácio do Catete. As reais lutas sociais tiveram como
cenários os mais diversos recantos do país, tanto no interior quanto nas
cidades. Sempre longe dos palácios.
O caso historiograficamente mais emblemático
é o da independência do Brasil. A versão oficial passa longe da realidade e da importância
dos acontecimentos. O Brado retumbante do ouvido às margens plácidas do Ipiranga
no 7 de Setembro de 1822 ,em uma viagem Rio - São Paulo (!), não foi ouvido
pelo povo heroico. Desde a vinda da corte, a relação colônia – metrópole fora definitivamente
abalada, a traumática ruptura não começou nem terminou em setembro 1822. Foi um
longo e doloroso processo que tomou o imenso território brasileiro por décadas.
| Maria Quitéria, com o saiote histórico |
Destaca-se as lutas e movimentos
em Pernambuco, São Paulo, Pará, Ceará e Minas Gerais. Mas nenhuma outra das
batalhas do processo de independência custou tantos corpos quanto a Independência
da Bahia. Quando explode a revolta liberal no Porto, são as capitais
nordestinas que mais sentem suas repercussões. Enquanto, a indignação da elite fluminense
se preocupava com a perda dos privilégios com o fim da proximidade da corte, outros
centros do Brasil debatiam o futuro imediato mais seriamente. Na Bahia, onde
havia número igual de portugueses a da capital, as discussões rapidamente se
tornaram conflitos armados. Se quase toda gente recebeu bem a liberalização vinda
do Porto, não foram poucos os lusos que não aceitaram o descumprimento constitucional
do príncipe regente com a declaração do Dia do Fico. Entre as várias batalhas
sangrentas, ressaltam-se as atuações heroicas de duas mulheres que o enorme
reconhecimento da sociedade machista à época não deixa espaço para a superestimação.
A ocupação portuguesa na progressista
Bahia era tumultuada e violenta, aumentando a intensidade das arbitrariedades
no pós-fico. Com o pretexto de perseguir revoltosos, os soldados lusos cometem
excessos atrás de excessos, culminando na invasão do Convento da Lapa. Temendo
pela castidade e vida das internas, a Abadessa Joana Angélica, madre-superiora
da instituição, impede com o corpo a entrada dos soldados ensandecidos: “Para trás, bandidos. Respeitem a Casa de Deus.
Recuai, só penetrareis nesta Casa passando por sobre o meu cadáver.” A
casa foi penetrada como a baioneta penetrou o tronco de madre. O mátir da
religiosa atiçou a fúria de uma sociedade profundamente espiritualizada.
| Nossa Mulan: guerreira imperial |
Uma das teses mais comuns em
análises da historia do Brasil é a de que o “povo assistiu bestializado” aos
eventos, como a independência. Essa visão encontra motivação em sua própria
argumentação. O povo do Brasil, em toda sua diversidade, participa ativamente da
construção política, cultural e social, portanto também política, do país. O
que lhe carece é alguma representação. Os intelectuais e políticos da elite econômica
“nacional” sempre procuraram retratar a si mesmos como principais agentes das
transformações, das quais, na prática, costumam serem mais obstáculos. Bestializam-se
as camadas populares para ausenta-lo de sentido. O povo é protagonismo de uma
história não vista.
| Onde o Rio é mais Bahia |
O papal de destaque da independência
da nação de um estado dito periférico, cujo uma mulher mulata guerreira escreve
as páginas mais belas, não é lembrado. Aliás, o termo correto deveria ser “é
esquecido”, pois não é por acaso que se ignora essas histórias. Como a independência
do Brasil apaga as independênciaS do
Brasil, a história do Brasil exclui aS históriaS do Brasil. Ainda há tempo de
se escrever as histórias do país plural. Como a baiana mulata peladora, o
processo não findou há espaços para empreitadas diversas de rara beleza.
Pelas ruas e lutas, o coqueirão - Se a Mangueira é, como canta com
propriedade Caetano, “onde o Rio é mais baiano”, cabe a Praia de Ipanema talvez
ser onde o Rio é mais Bahia. A praia dos alternativos e vanguardismos clássicos
dos cariocas se localiza na avenida que homenageia um engenheiro da Republica
Velha, Vieira Souto. Entretanto, a referência da avenida principal é secundária.
O estandarte na areia é o coqueirão, fina árvore, mal faz sombra aos adoradores
do astro, escolheu bem quem limita seus domínios cosmopolitas. A juventude carioca
tem como base as heroínas baianas do Brasil, que paralelas da Lagoa deságuam na
praia. Nada mais carioca por uma via baiana. Nossa história está espalhada por
todo canto da cidade, mas também de todo o país. Maria e Joana guiam os
bem-aventurados: O caminho do sol é a trilha aberta pelas guerreiras baianas.
Perdão para os torcedores do Vitória, mas na Bahia a obrigação é torcer pelo Baêa
quinta-feira, 28 de junho de 2012
A Libertadores é melhor que a Liga dos Campeões
Separación de los hombres de los
niños - Não há o que discutir, os melhores jogadores do mundo jogam nos
melhores estádios-arenas do universo quando disputam a UEFA Champions League. Ao
tocar o poliglota hino da Champions, é quase certo um grande confronto técnico
e tático. Pela soma desses fatores, a competição européia de clubes é a mais
famosa e a mais pelo vista mundo a fora, incluindo o Brasil. A constatação da
qualidade do continental europeu não deve ser enxergada, no entanto, por um
viés restritivo que assume hoje: muitos afirmam que o futebol só existe por
aquelas bandas e o resto é lixo. Noves fora o complexo de vira-lata da parte
sul do planeta, quem defende a supremacia da UEFA ignora o torneio mais difícil,
mais brigado e mais foda do planeta: a Taça Libertadores da América.
A
competição da América do sul não tem Messi ou Cristiano Ronaldo, nem o Old
Trafford, nem a organização e nem o glamour da Champions. O torneio sudamericano
tem jogos que os horários são alterados em cima da hora, tumulto na chegada do
ônibus, chuva de papel picado e de papel higiênico, sinalizadores coloridos
queimando em fúria (ainda!), gramados que são pastos, jogadores comuns, intimidação aos árbitros,
torcedores alucinados, cartão amarelo que vale uma multa ridícula (U$ 80 por
cartão amarelo) e não suspensão e, o maior símbolo do romantismo latino no
futebol, a clássica barreira de escudos policiais para proteger o cobrador na hora
da cobrança do escanteio.
O sentimento
Latino é pelador, brigador, quer a luta garrida; o sentimento nacional de cada
país é oposto, mais sóbrio, menos exaltado. Claro que sobram raça e paixão no
disputado campeonato argentino ou no uruguaio, mas o sangue ferve até os olhos
somente na e pela Libertadores, como atestam os cantos das hinchas de Boca,
Peñarol, Cerro ou Universidad, sempre recordando ou desejando a competição.
Na
Europa, são diferentes as motivações, o sentimento europeu comum é o
civilizatório, racional, modelo para o planeta; o sangue esquenta como um
latino somente no latente nacionalismo. A crise econômica demonstra que o
nacionalismo, ao contrário da visão do eurosonho, está presente demais.
Comparemos
duas análises regionais da época do nascimento do futebol. O escritor Eduardo
Prado critica com veemência o pan-americanismo, em A Ilusão americana, em 1893: “Onde
é que se foi descobrir na história que todas as nações de um mesmo continente
devem ter o mesmo governo? E onde é que a história nos mostrou que essas nações
têm por força de serem irmãs? (...)A fraternidade americana é uma mentira.
Tomemos as nações ibéricas da América. Há mais ódios, mais inimizades entre
elas do que entre as nações da Europa”
| A Turquia ainda é não-européia |
No mesmo período
o bigode europeu de Nietzsche profetizava em Humano, demasiado humano : “O homem europeu e a destruição das
nações – O comércio e a indústria, a
circulação de livros e cartas, a posse comum de toda cultura superior , a
rápida mudança de lar e de região, a atual vida nômade de quem não possuem
terras - essas circunstâncias trazem
necessariamente o enfraquecimento e por
fim a destruição das nações, aos menos
das europeias: de modo que a partir delas , em consequência de contínuos
cruzamentos, deve surgir uma raça mista, a do homem-europeu”. Esse “homem-europeu” é o torcedor que paga, no
mínimo, mais de 70 euros para assistir a um jogo, pega o eurotrem sem cantar uma música ,esse é
o torcedor que exige assentos aquecidos ao invés de pular o jogo todo para se
aquecer, falando em aquecer, ai da organização se o chá desse torcedor estiver
morno. Tudo de acordo com o espatáculo plástico. Nada mais justo que o Chelsea
e a sua moderninha torcida, mais interessada no Iphone do que no jogo seja campeão.
Sintoma crasso de uma Europa com valores
em crise? Talvez. Ao sul do equador, onde
o pecado continua legalizado, a final é entre os maloqueiros do Corinthians
contra os ensandecidos xenezies do Boca. Melhor assim.
terça-feira, 15 de maio de 2012
Spike Lee Vs Ali Kamel - Mais um 13 de Maio esquecido
Nesse ano de 2012, Spike
Lee, diretor do filmaço "Malcom X", está realizando uma série de
viagens ao Brasil, onde realiza um documentário sobre o país que se transforma.
Ou pelo menos tenta um pouco. A escolha de Spike foi entrevistar diversas
personalidades, de Dilma a Romário, passando pelo Caetano. A mídia no seu papel
habitual de desinformação categórica destaca as entrevistas, não o filme. Tomam
o meio pelo objetivo, anunciando nas manchetes que o diretor veio ao país para
as entrevistas. Querem esquecer o filme, pois o tema lhes é maldito: a questão
racial no Brasil.
| 1989, Não somos racistas |
“Que questão?” “Que racismo?”
Perguntaria Ali Kamel, autor de (sic) “Não
somos racistas”, livro que prega o banimento de qualquer política de ação
afirmativa no Brasil, por que, como expõe o título não há racismo por aqui.
Inspirando-se em Gilberto Freyre, Kamel tenta estabelecer novas ideias sobre a
natureza da miscegnação nacional. A diferença é que Ali não tem o mesmo talento
que Freyre, entretanto tem bem mais poder. Ali Kamel é diretor de jornalismo da
Globo, a eterna casa-grande da imprensa brasileira.
| Ali Kamel e sua obra |
A voz da casa-grande é a
única que se ouve na senzala. Spike Lee escolheu cirurgicamente o momento do
julgamento da constitucionalidade das cotas para abrir seu filme, o que passou
escandalosamente batido nos grandes meios. Um dos maiores diretores da atualidade
enxerga uma mazela na sociedade brasileira, vem aqui discuti-las de maneira
aguda e a repercussão é mínima. “Velozes
e Furiosos 5”, rodado também no Brasil teve cobertura diária das gravações,
só para efeito de comparação. Mesmo não merecendo a mesma atenção que um
blockbuster do Van Disel, fica evidente um boicote à película de Lee por conta
da sua temática.
“Não é Spike Lee que vai colocar à tona o que varremos para deixo do
tapete” pensa os comandantes da re(d)ação conservadora às cotas. E de fato, pelo
menos ainda, nem o diretor nem ninguém conseguiu colocar o debate na pauta do
dia.
| Spike Lee curte um bom basquete, nesta com Henry |
O último 13 de Maio é
sintomático nesse aspecto. Começando antes, durante a semana anterior, o
congresso votou mais uma vez a PEC do trabalho escravo que tipifica e amplia as
punições para o trabalho escravo. O projeto está há onze anos na câmara,
terceira legislatura,e, mais uma vez, foi derrotado. “Porque? Como um projeto contra o trabalho escravo é tão indesejado? Por
Quem?”. São perguntas que deveriam ser feitas. No aniversário da assinatura da Lei Áurea,
não é feriado, por sinal, quase nada foi dito ou lembrado. Ofuscado pelo
comercailissímo dia das mães, a data da libertação dos negros escravizados foi
solenemente ignorada. Poucas comemorações oficiais, nenhuma reportagem, por
fim, esquecimento obrigatório. Deveria ser lembrada.
Resta
uma esperança, Spike Lee voltou aos EUA para acompanhar os New York Knicks nos
play-offs da NBA. A equipe de NY já caiu fora. Lee já esta voltando com novos
olhares sobre nossas memórias. Devemos ver, para não esquecer os futuros 13 de
Maio do Brasil.
Spike Lee colocou o Inimigo Público lutando contra o poder para abrir "Faça a coisa certa"...
quinta-feira, 26 de abril de 2012
O futebol só ganha com a derrota do Barcelona
O Barcelona é
o melhor time do mundo, mais do que isso, é um dos maiores times de todos os
tempos. O jeito de jogar com a posse de bola quase permanente permitindo que os
passes sejam cumpridos à medida que são dados é inédito, pelo menos neste grau
de eficiência. A equipe comandada por Guardiola tem tamanha noção coletiva que
deveria ser inspiração para os socialistas, como argumenta o genial Torero: “o time tem um planejamento central forte,
feito por Pep Guardiola, que conhece bem seus recursos naturais e os utiliza de
forma racional para o bem comum. Há também uma certa abolição de classes. Não
há mais uma separação nítida entre zagueiros, meio campistas e atacantes.
Principalmente entre estes dois últimos. Messi pode ser visto na ponta direita
e zanzando como volante, Fábregas é um meio-campista mas aparece para
finalizar, Dani Alves é um lateral que mais parece um ponta. Assim sendo,
obviamente temos a propriedade coletiva dos meios de produção do gol, pois
todos podem, e devem, atacar.” Torero inclusive lembra o papel da cidade de
Barcelona na resistência a Franco durante a guerra civil, flertando com o
anarquismo, movimento presente também no time do Barça: “Quanto à pitada de anarquismo, vem da mobilidade decidida pelos
próprios jogadores dentro de campo. Não é “cada um faz o que quer”, como se
pensa erradamente sobre o anarquismo, mas um conjunto orgânico, que funciona
como um ser vivo, com cada indivíduo se comportando como a célula de um grande
organismo.” Portanto, nas palavras do escritor fica claro que o atual
fantástico Barcelona não é uma referência apenas de excelência esportista, seu
desempenho em conjunto é parâmetro para toda forma de empreendimento, do político
ao artístico.
Alguns saudosistas
gostam de atribuir ao time do Guardiola à alcunha de “herdeiro do futebol
antigo” ou até “vingador da seleção brasileira de 82”. Pensam que o Barça é uma
revanche contra o futebol feio e eficiente praticado hoje. Trate-se de uma falsa
dicotomia: o caminho mais fácil para a vitória é ter a posse de bola. Além da maior
possibilidade de marcar, manter a bola reduz as chances de gol do adversário e
o cansa, pondo-o para correr atrás. O futebol do Barça não é parnasiano,
alcança seus objetivos pelo caminho que dispõe. A beleza é uma feliz consequência.
![]() |
| Uma estratégia válida |
Só o futebol
possibilita ao time inferior vencer mesmo jogando pior. No atletismo o melhor é
posto a prova em todas as disputas: quem corre, salta, pula ou arremessa menos
é pior. Simples assim. Em outros esportes coletivos como vôlei e basquete, o
pior pode até vencer, mas só se jogar melhor, se obter as melhores estáticas. A
seleção americana de basquete é a melhor, mas perde, pois joga pior. A diferença
técnica presente no basquete e no vôlei se faz presente, no entanto, em um
play-off na melhor de três, cinco ou
sete jogos.
| O time de Messi perde: tudo é possível |
O Barça
é o melhor time do mundo, joga melhor e... pode perder, só porque o jogo no
qual é brilhante chama-se futebol. O Barcelona Fútbol Club não precisa de mais
conquistas para sua consagração. O futebol precisa se renovar através das
surpresas que se superam e fazem do certo o duvidoso e do impossível o destino.
Isso possibilita ao esporte ser único, capaz de lições raras. Como outras
expressões artísticas o futebol dá vida ao conhecimento, tornando seus
ensinamentos mais valiosos que a própria verdade transmitida.
Nada mais
didático do que uma belo fracasso aliás, porém tal aprendizado é mais
proveitoso para quem tem a capacidade de se reinventar. É o caso do time de Pep,
que se reinventou em 1999, em 2004, em 2007 e em 2009, só para ficar nas mudanças
recentes. Em todos os casos saindo do ótimo para o fantástico, e deste para o
melhor. Se dependesse daqueles saudosistas, meritocratas conservadores, o
melhor time do planeta seria ainda o Sheffield United. Não havendo nem o Santos
de Pelé ou a Laranja mecânica holandesa, com suas respostas inovadoras fomentadas
por derrotas. Só os grandes sabem se remodelar assim, só os maiores não perdem
a soberania após os insucessos.
Vencer sendo
reconhecidamente mais fraco não torna a vitória mais vitoriosa? Não é o que
ensina o mito de Davi contra Golias? Ou as histórias gregas nas quais homens usando
a sapiência conseguem derrotar titãs e ludibriar deuses? A derrota faz do
gigante menor ou da divindade menos sagrada?Que o Barça seja sempre espetacular, para que quando cair, tombe de pé, dando ao vitorioso um pouco da glória que já possui. Há grandeza em azul-grená suficiente para isso. Sem que haja o choro rancoroso dos conservadores.
![]() | |
| Na copa de 54 primeiro jogo ocorre o certo, no segudo a história |
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Como era gostoso meu francês – Antropofagia, por acaso uma esperança para o Brasil
Estudos historiográficos recentes tentam responder uma questão geográfica: “Por que os franceses invadiram o Brasil pela Baia da Guanabara?”. Abandonando o “riocentrismo”, percebe-se que não foi a beleza da região ou outro pormenor. A França Antártica foi fundada na beira da baia, pois a incipiente colônia era ignorada pelos lusos, mais interessados em São Vicente, Bahia de Todos os Santos e Pernambuco. O oportunismo francês foi o ponta pé inicial definitivo para o que viria a ser a cidade maravilhosa, um dos símbolos do Brasil. Séculos depois, o Rio de Janeiro teria a sorte de ser o porto escoador do ouro mineiro. O acúmulo de acasos geográficos fez do Rio uma cidade importante. O acúmulo de culturas faz do acaso um fator importante para a história do Brasil.
Não sabemos se é por acaso ou não que o francês Jean, protagonista de Como era gostoso meu francês, chega por aqui. Sabemos que é por acaso que ele é confundido com um português e, por isso, é capturado e preso pelos tupinambás. O seu destino é a sentença dada aos inimigos: após oito luas, equivalente a oito meses, será devorado pela tribo. Jean, que quando preso pelos portugueses tinha um bola de ferro acorrentada aos pés, logo percebe que o cativeiro nativo é diferente: sem grades, sem correntes, sem confinamento. Não há distinção entre o livre e o condenado, senão o futuro. A sociedade tupinambá, sua prisão, o consome, em todos os sentidos.
Não é só Jean que é consumido. O espectador é ainda mais rapidamente consumido pelos tupinambás. Pintos, periquitas e peitos saltam aos olhos, a flauta rústica e o idioma guarani surpreendem aos ouvidos (o francês, pelo contrário, não nos espanta, sintomático da submissão cultural). Entretanto não demora muito para naturalizamos a nudez explicita e as palavras estranhas. Como o francês Jean nos deixamos consumir.
Em 1922, Oswald de Andrade lança o manifesto Pau-Brasil, que, parodiando o canibalismo tupi, prega a antropofagia cultural. Tal movimento consistia em absorver culturas e “vomitar” arte, mais cultura. Não era o que praticava as tribos do Brasil do século XVI, mas seus prisioneiros, sim, praticavam uma espécie de antropofagismo. A miscigenação cultural, com todas as ressalvas do preconceito e intolerância que percorrem toda a história do país, beberia muito dessa fonte ou comeria muito dessa carne.
O pronome possessivo “meu” no título da película deixa claro que a perspectiva presente é a do nativo, que toma para si o estrangeiro. O exótico não é o “índio” é o europeu, mas o que prevalece é o gostoso. Uma escolha histórica da cultura brasileira: preferir o sabor à posse. O cineasta e historiador Paulo Emílio Sales Gomes falava que “Para o Brasil nada é estrangeiro, pois tudo o é”. Nada é ao acaso, desde que seja tudo gostoso, de preferência banhado em sangue e sensualidade.
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