segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Tapete Verde



Durma-se com um barulho desse
Fala muito
Ouve pouco
Faz poesia sobre o jogo

Dez pra dois
Cinco pra um
Quero quatro na mesa
Ouro na cabeça

Estica a ficha
Corre o tempo
Sem nenhum receio
Cara feia não põe medo

Olho de vidro
Ali do lado
Em terra de cego
Quem tem dama é rei

Vim pra fazer aposta
E não fortuna
Pra fazer história
Não escrever o futuro
Pra fazer a festa
Que me importa a glória?

Invisto a grana em vida
sem desperdício
Se vier uma dose forte
É pura sorte

Sete copas na cachola
Espadas rolam cabeças a prêmio
Em um tapete verde as vezes
Sofrem os gênios com cartas sem escola
Só conta os meses

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O esquecimento é o que acontece – Cartola e Nietzsche se encontram em um jardim




                                                                               Gal acontece

“Não poderia haver felicidade, jovialidade, esperança, orgulho, presente, sem o esquecimento.” Assim concluiu Nietzsche na segunda dissertação de A Genealogia da Moral. O esquecimento, ressalta o filósofo bigodudo, não é uma consequência passiva de um lapso memorial. O esquecer, pelo contrário, é uma atitude afirmativa necessária para uma existência plenamente autêntica. O oposto dessa pulsação de esquecimento, fiadora da felicidade, é a consciência humana, base da moralidade. Simplificadamente, a consciência é o pensamento mais profundo do individuo, particularmente concernente ao sentido virtual de certo e errado. Nietzsche, em A genealogia, associa o surgimento da consciência com inicio da estrutura social e da criação de leis, que por sua vez dependem da repressão do instinto e do desenvolvimento de um tipo especifico de racionalidade: “finalmente tomamos partidos contra nós mesmos, ficamos doentes e nos punimos.” Nessa cadeia social, a consciência é a cela cujo carcereiro e o preso é a mesma pessoa, o indivíduo.

Todos os instintos que não são liberados atuam internamente. Isso é o que chamo interiorização” Já disse Nietzsche bem antes de Freud. Se a chave para superar a prisão da consciência é o esquecimento, o caminho oposto da interiorização é, obviamente, seu inverso, a exteriorização. O instinto nesse processo não é domado, mas estimulado como desejo, esse dialogando com o que de novo há no mundo exterior. Um dos vários nomes com o qual se pode nomear essa fenômeno do “que há de novo no mundo” é de “acontecimento”. O acontecimento do novo é, portanto, manifestação encarnada do desejo, isto é, a vontade, permitida somente pela capacidade de esquecimento. Alguns chamariam essa vontade de “amor”. Para o novo amor é necessário o novo esquecimento.



Cartola simplifica:                

Acontece                                                                  

Esquece o nosso amor
Vê se esquece.
Porque tudo na vida acontece
E acontece que eu já não sei mais amar.
Vai sofrer, vai chorar
E você não merece,
Mas isso acontece.


Alguns versos em determinadas estruturas poéticas se salientam mais que os outros para uma compreensão apolínea do texto. No caso de Acontece, começamos pelos últimos versos do par de estrofes: a primeira termina com “mas isso acontece”, mostrando resignação perante o inevitável fardo da vida; a segunda estrofe, negando, conclui “isso não acontece”, definido a partir da reconhecida, de maneira fria e dura, impossibilidade de atuar. O primeiro verso oferece, o segundo quase imperativamente exige a aceitação do esquecimento: “Vê se esquece” E por que esquecer, Cartola? “Porque tudo na vida acontece”.

Analisando mais amplamente, nota-se que a primeira estrofe tem sete versos, sendo o primeiro um verso branco, ou seja, não possui um par com o qual rime. Esse verso solitário é justamente “Esquece o nosso amor” Na poesia de Cartola o amor muitas vezes não rima. Para o verso não ficar manco, isto é sem rima alguma, o poeta opta por repetir esquece, reforçando o sentido do esquecimento logo no princípio da obra.

Enquanto o drama da primeira estrofe reside no reconhecimento melancólico da incapacidade do amante “E acontece que eu já não sei mais amar”, na segunda o conflito se deve a outra potencialidade negada, não por incapacidade, mas por vontade “Se eu ainda pudesse fingir que te amo”. A resultante da primeira é o sofrimento passivo: “Vai sofrer, vai chorar”, o desenrolar da segunda, novamente, é uma resistência da vontade “Mas não posso, não devo fazê-lo”

As estrofes em dois resumos minimalistas anti-poético poderiam ser, a primeira: “Esqueça e aceite, tudo acontece até o que não quero e é injusto”. A segunda, no mesmo estilo, seria: “Poder o que eu não quero não acontece”. Com uma dose certa de beleza, seriam dois aforismos bem Nietzscheano.  
             
Acontece que o meu coração ficou frio
E o nosso ninho de amor está vazio.
Se eu ainda pudesse fingir que te amo,
Ah, se eu pudesse
Mas não posso, não devo fazê-lo,
Isso não acontece.


           Não só para indivíduos, a criação cultural de uma sociedade estaria ligada a capacidade desta conseguir superar a história, ou seja, esquecer para cultivar o novo. Na metade final do século XIX, em meio a unificação alemã, borbulhava o debate em torno da necessidade da história para o fortalecimento cultural de uma nação e de um povo. A opinião de Nietzsche era uma das mais polêmicas: a história servia para uma educação limitada e enciclopédica, engessando decisivamente a cultura, como “um crocodilo a engolir a um antílope”. O esquecimento, a ignorância histórica proposital, levaria a uma cultura radicalmente inovadora, que seria verdadeiramente atraente para o novo, para a nova geração, para a juventude. Do contrário o desinteresse cultural triunfaria, o “coração ficaria frio”. Não só isso, Nietzsche alertava que as consequências de uma absorção cultural exterior - sem o esquecimento permitindo o acontecimento – seriam imprevisíveis. A história alemã no século XX, ironicamente, deu razão ao bigode. Faltou esquecimento.



Um poeta poderia dizer que Deus instalou o esquecimento como guardião da soleira do templo da dignidade humana” Nietzsche em Humano, demasiado Humano


                 Nietzsche em o Nascimento da Tragédia, primeiro dos seus livros, compara o surgimento do teatro entre os gregos como o “desabrochar das rosas em uma noite espinhos”. A medida em que vai escrevendo, Nietzsche vai confrontando a si mesmo e se refazendo, sem nunca, no entanto abandonar as floridas metáforas. Em Aurora, o alemão compara o trabalho de um filosofo diante da história com de um jardineiro: A partir das raízes difusas e horrendas, chega-se a sublime harmonia das pétalas de rosas. Cartola sintetizou parte desse pensamento em outra canção igualmente brilhante, através do singelo e poderoso verso: “As rosas não falam”. De longe passeando pelo mesmo jardim, com olhar atento e ar distraído para as mesmas flores, enquanto ajeita o bigode do futuro, o filósofo observaria: “Certamente elas não falam, as rosas superam

terça-feira, 3 de julho de 2012

2 de Julho – A independência da Bahia contra o histórico riocentrismo: duas guerreiras na Praia de Ipanema.



Um dos mais danosos vícios do estudo histórico do Brasil é o “sudestecentrismo”, focado especificamente em um “riocentrismo”. Evidentemente, a cidade do Rio de Janeiro ocupa um lugar de destaque na história brasileira, em especial do desembarque da corte na Praça XV a inauguração de Brasília, contudo esse peso carece de relativização.  As conquistas políticas ocorridas no século XIX, independência, proclamação da República e abolição da escravidão foram logradas apesar dos seguidos governos autoritários, sediados primeiro na Quinta da Boa Vista e depois no Palácio do Catete. As reais lutas sociais tiveram como cenários os mais diversos recantos do país, tanto no interior quanto nas cidades. Sempre longe dos palácios.  

O caso historiograficamente mais emblemático é o da independência do Brasil. A versão oficial passa longe da realidade e da importância dos acontecimentos. O Brado retumbante do ouvido às margens plácidas do Ipiranga no 7 de Setembro de 1822 ,em uma viagem Rio - São Paulo (!), não foi ouvido pelo povo heroico. Desde a vinda da corte, a relação colônia – metrópole fora definitivamente abalada, a traumática ruptura não começou nem terminou em setembro 1822. Foi um longo e doloroso processo que tomou o imenso território brasileiro por décadas.

Maria Quitéria, com o saiote histórico 
Destaca-se as lutas e movimentos em Pernambuco, São Paulo, Pará, Ceará e Minas Gerais. Mas nenhuma outra das batalhas do processo de independência custou tantos corpos quanto a Independência da Bahia. Quando explode a revolta liberal no Porto, são as capitais nordestinas que mais sentem suas repercussões. Enquanto, a indignação da elite fluminense se preocupava com a perda dos privilégios com o fim da proximidade da corte, outros centros do Brasil debatiam o futuro imediato mais seriamente. Na Bahia, onde havia número igual de portugueses a da capital, as discussões rapidamente se tornaram conflitos armados. Se quase toda gente recebeu bem a liberalização vinda do Porto, não foram poucos os lusos que não aceitaram o descumprimento constitucional do príncipe regente com a declaração do Dia do Fico. Entre as várias batalhas sangrentas, ressaltam-se as atuações heroicas de duas mulheres que o enorme reconhecimento da sociedade machista à época não deixa espaço para a superestimação.         

A ocupação portuguesa na progressista Bahia era tumultuada e violenta, aumentando a intensidade das arbitrariedades no pós-fico. Com o pretexto de perseguir revoltosos, os soldados lusos cometem excessos atrás de excessos, culminando na invasão do Convento da Lapa. Temendo pela castidade e vida das internas, a Abadessa Joana Angélica, madre-superiora da instituição, impede com o corpo a entrada dos soldados ensandecidos: “Para trás, bandidos. Respeitem a Casa de Deus. Recuai, só penetrareis nesta Casa passando por sobre o meu cadáver.” A casa foi penetrada como a baioneta penetrou o tronco de madre. O mátir da religiosa atiçou a fúria de uma sociedade profundamente espiritualizada.
Nossa Mulan: guerreira imperial

Uma dessas impelidas a luta pela morte de Joana Angélica foi Maria Quitéria. Deflagradas as lutas de apoio à independência em 1822, o Conselho Interino do Governo da Bahia, defendia o movimento e procurava voluntários para suas tropas. Maria Quitéria, interessada em se alistar, pediu permissão ao seu pai, mas seu pedido foi negado. Com o apoio de sua irmã Tereza Maria e seu cunhado José Cordeiro de Medeiros, Quitéria cortou o cabelo, vestiu-se de homem e se alistou com o nome de Medeiros,o Soldado Medeiros, no Batalhão dos Voluntários do Príncipe, chamado de Batalhão dos Periquitos, por causa dos punhos e da gola verde em seu uniforme. De soldada foi promovida a cadete, por conta de atos de bravura na Batalha de Pituba pela defesa da Ilha de Maré, tendo assim recebido uma espada, algo absurdamente excepcional para uma mulher no século XIX. Quando o Exército Libertador entra em Salvador triunfante, Maria, com seu uniforme azul com uma saia feito por ela mesma, é saudada e festejada como heroína. O próprio Imperador Dom Pedro I condecorou a brava baiana: “Querendo conceder a D. Maria Quitéria de Jesus o distintivo que assinala os Serviços Militares que com denodo raro, entre as mais do seu sexo, prestara à Causa da independência deste Império, na porfiosa restauração da Capital da Bahia, hei de permitir-lhe o uso da insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro ".
Uma das teses mais comuns em análises da historia do Brasil é a de que o “povo assistiu bestializado” aos eventos, como a independência. Essa visão encontra motivação em sua própria argumentação. O povo do Brasil, em toda sua diversidade, participa ativamente da construção política, cultural e social, portanto também política, do país. O que lhe carece é alguma representação. Os intelectuais e políticos da elite econômica “nacional” sempre procuraram retratar a si mesmos como principais agentes das transformações, das quais, na prática, costumam serem mais obstáculos. Bestializam-se as camadas populares para ausenta-lo de sentido. O povo é protagonismo de uma história não vista.

Onde o Rio é mais Bahia
O papal de destaque da independência da nação de um estado dito periférico, cujo uma mulher mulata guerreira escreve as páginas mais belas, não é lembrado. Aliás, o termo correto deveria ser “é esquecido”, pois não é por acaso que se ignora essas histórias. Como a independência do Brasil apaga as independênciaS do Brasil, a história do Brasil exclui aS históriaS do Brasil. Ainda há tempo de se escrever as histórias do país plural. Como a baiana mulata peladora, o processo não findou há espaços para empreitadas diversas de rara beleza.
                                                                                           
Pelas ruas e lutas, o coqueirão - Se a Mangueira é, como canta com propriedade Caetano, “onde o Rio é mais baiano”, cabe a Praia de Ipanema talvez ser onde o Rio é mais Bahia. A praia dos alternativos e vanguardismos clássicos dos cariocas se localiza na avenida que homenageia um engenheiro da Republica Velha, Vieira Souto. Entretanto, a referência da avenida principal é secundária. O estandarte na areia é o coqueirão, fina árvore, mal faz sombra aos adoradores do astro, escolheu bem quem limita seus domínios cosmopolitas. A juventude carioca tem como base as heroínas baianas do Brasil, que paralelas da Lagoa deságuam na praia. Nada mais carioca por uma via baiana. Nossa história está espalhada por todo canto da cidade, mas também de todo o país. Maria e Joana guiam os bem-aventurados: O caminho do sol é a trilha aberta pelas guerreiras baianas.  

                         Perdão para os torcedores do Vitória, mas na Bahia a obrigação é torcer pelo Baêa

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A Libertadores é melhor que a Liga dos Campeões




                                                                          
Separación de  los hombres de los niños - Não há o que discutir, os melhores jogadores do mundo jogam nos melhores estádios-arenas do universo quando disputam a UEFA Champions League. Ao tocar o poliglota hino da Champions, é quase certo um grande confronto técnico e tático. Pela soma desses fatores, a competição européia de clubes é a mais famosa e a mais pelo vista mundo a fora, incluindo o Brasil. A constatação da qualidade do continental europeu não deve ser enxergada, no entanto, por um viés restritivo que assume hoje: muitos afirmam que o futebol só existe por aquelas bandas e o resto é lixo. Noves fora o complexo de vira-lata da parte sul do planeta, quem defende a supremacia da UEFA ignora o torneio mais difícil, mais brigado e mais foda do planeta: a Taça Libertadores da América.
                A competição da América do sul não tem Messi ou Cristiano Ronaldo, nem o Old Trafford, nem a organização e nem o glamour da Champions. O torneio sudamericano tem jogos que os horários são alterados em cima da hora, tumulto na chegada do ônibus, chuva de papel picado e de papel higiênico, sinalizadores coloridos queimando em fúria (ainda!), gramados que são pastos,  jogadores comuns, intimidação aos árbitros, torcedores alucinados, cartão amarelo que vale uma multa ridícula (U$ 80 por cartão amarelo) e não suspensão e, o maior símbolo do romantismo latino no futebol, a clássica barreira de escudos policiais para proteger o cobrador na hora da cobrança do escanteio.    
O sentimento Latino é pelador, brigador, quer a luta garrida; o sentimento nacional de cada país é oposto, mais sóbrio, menos exaltado. Claro que sobram raça e paixão no disputado campeonato argentino ou no uruguaio, mas o sangue ferve até os olhos somente na e pela Libertadores, como atestam os cantos das hinchas de Boca, Peñarol, Cerro ou Universidad, sempre recordando ou desejando a competição.
  Na Europa, são diferentes as motivações, o sentimento europeu comum é o civilizatório, racional, modelo para o planeta; o sangue esquenta como um latino somente no latente nacionalismo. A crise econômica demonstra que o nacionalismo, ao contrário da visão do eurosonho, está presente demais.
Comparemos duas análises regionais da época do nascimento do futebol. O escritor Eduardo Prado critica com veemência o pan-americanismo, em A Ilusão americana, em 1893: “Onde é que se foi descobrir na história que todas as nações de um mesmo continente devem ter o mesmo governo? E onde é que a história nos mostrou que essas nações têm por força de serem irmãs? (...)A fraternidade americana é uma mentira. Tomemos as nações ibéricas da América. Há mais ódios, mais inimizades entre elas do que entre as nações da Europa
A Turquia ainda é não-européia
No mesmo período o bigode europeu de Nietzsche profetizava em Humano, demasiado humano : “O homem europeu e a destruição das nações – O comércio e a indústria, a circulação de livros e cartas, a posse comum de toda cultura superior , a rápida mudança de lar e de região, a atual vida nômade de quem não possuem terras  - essas circunstâncias trazem necessariamente o enfraquecimento e  por fim a destruição  das nações, aos menos das europeias: de modo que a partir delas , em consequência de contínuos cruzamentos, deve surgir uma raça mista, a do homem-europeu”.  Esse “homem-europeu” é o torcedor que paga, no mínimo, mais de 70 euros para assistir a um jogo,  pega o eurotrem sem cantar uma música ,esse é o torcedor que exige assentos aquecidos ao invés de pular o jogo todo para se aquecer, falando em aquecer, ai da organização se o chá desse torcedor estiver morno. Tudo de acordo com o espatáculo plástico. Nada mais justo que o Chelsea e a sua moderninha torcida, mais interessada no Iphone do que no jogo seja campeão.  Sintoma crasso de uma Europa com valores em crise? Talvez.  Ao sul do equador, onde o pecado continua legalizado, a final é entre os maloqueiros do Corinthians contra os ensandecidos xenezies do Boca. Melhor assim. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Spike Lee Vs Ali Kamel - Mais um 13 de Maio esquecido




Nesse ano de 2012, Spike Lee, diretor do filmaço "Malcom X", está realizando uma série de viagens ao Brasil, onde realiza um documentário sobre o país que se transforma. Ou pelo menos tenta um pouco. A escolha de Spike foi entrevistar diversas personalidades, de Dilma a Romário, passando pelo Caetano. A mídia no seu papel habitual de desinformação categórica destaca as entrevistas, não o filme. Tomam o meio pelo objetivo, anunciando nas manchetes que o diretor veio ao país para as entrevistas. Querem esquecer o filme, pois o tema lhes é maldito: a questão racial no Brasil.

1989, Não somos racistas

Que questão?” “Que racismo?” Perguntaria Ali Kamel, autor de (sic) “Não somos racistas”, livro que prega o banimento de qualquer política de ação afirmativa no Brasil, por que, como expõe o título não há racismo por aqui. Inspirando-se em Gilberto Freyre, Kamel tenta estabelecer novas ideias sobre a natureza da miscegnação nacional. A diferença é que Ali não tem o mesmo talento que Freyre, entretanto tem bem mais poder. Ali Kamel é diretor de jornalismo da Globo, a eterna casa-grande da imprensa brasileira.

Ali Kamel e sua obra
A voz da casa-grande é a única que se ouve na senzala. Spike Lee escolheu cirurgicamente o momento do julgamento da constitucionalidade das cotas para abrir seu filme, o que passou escandalosamente batido nos grandes meios. Um dos maiores diretores da atualidade enxerga uma mazela na sociedade brasileira, vem aqui discuti-las de maneira aguda e a repercussão é mínima. “Velozes e Furiosos 5”, rodado também no Brasil teve cobertura diária das gravações, só para efeito de comparação. Mesmo não merecendo a mesma atenção que um blockbuster do Van Disel, fica evidente um boicote à película de Lee por conta da sua temática. 

Não é Spike Lee que vai colocar à tona o que varremos para deixo do tapete” pensa os comandantes da re(d)ação conservadora às cotas. E de fato, pelo menos ainda, nem o diretor nem ninguém conseguiu colocar o debate na pauta do dia.

Spike Lee curte um bom basquete, nesta com Henry

O último 13 de Maio é sintomático nesse aspecto. Começando antes, durante a semana anterior, o congresso votou mais uma vez a PEC do trabalho escravo que tipifica e amplia as punições para o trabalho escravo. O projeto está há onze anos na câmara, terceira legislatura,e, mais uma vez, foi derrotado. “Porque? Como um projeto contra o trabalho escravo é tão indesejado? Por Quem?”. São perguntas que deveriam ser feitas.  No aniversário da assinatura da Lei Áurea, não é feriado, por sinal, quase nada foi dito ou lembrado. Ofuscado pelo comercailissímo dia das mães, a data da libertação dos negros escravizados foi solenemente ignorada. Poucas comemorações oficiais, nenhuma reportagem, por fim, esquecimento obrigatório. Deveria ser lembrada.

   Resta uma esperança, Spike Lee voltou aos EUA para acompanhar os New York Knicks nos play-offs da NBA. A equipe de NY já caiu fora. Lee já esta voltando com novos olhares sobre nossas memórias. Devemos ver, para não esquecer os futuros 13 de Maio do Brasil.

Spike Lee colocou o Inimigo Público lutando contra o poder para abrir "Faça a coisa certa"...

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O futebol só ganha com a derrota do Barcelona


A seleção de 82 não perderia de jeito nenhum, pena que o jogo era de futebol

O Barcelona é o melhor time do mundo, mais do que isso, é um dos maiores times de todos os tempos. O jeito de jogar com a posse de bola quase permanente permitindo que os passes sejam cumpridos à medida que são dados é inédito, pelo menos neste grau de eficiência. A equipe comandada por Guardiola tem tamanha noção coletiva que deveria ser inspiração para os socialistas, como argumenta o genial Torero: “o time tem um planejamento central forte, feito por Pep Guardiola, que conhece bem seus recursos naturais e os utiliza de forma racional para o bem comum. Há também uma certa abolição de classes. Não há mais uma separação nítida entre zagueiros, meio campistas e atacantes. Principalmente entre estes dois últimos. Messi pode ser visto na ponta direita e zanzando como volante, Fábregas é um meio-campista mas aparece para finalizar, Dani Alves é um lateral que mais parece um ponta. Assim sendo, obviamente temos a propriedade coletiva dos meios de produção do gol, pois todos podem, e devem, atacar.” Torero inclusive lembra o papel da cidade de Barcelona na resistência a Franco durante a guerra civil, flertando com o anarquismo, movimento presente também no time do Barça: “Quanto à pitada de anarquismo, vem da mobilidade decidida pelos próprios jogadores dentro de campo. Não é “cada um faz o que quer”, como se pensa erradamente sobre o anarquismo, mas um conjunto orgânico, que funciona como um ser vivo, com cada indivíduo se comportando como a célula de um grande organismo.” Portanto, nas palavras do escritor fica claro que o atual fantástico Barcelona não é uma referência apenas de excelência esportista, seu desempenho em conjunto é parâmetro para toda forma de empreendimento, do político ao artístico.
Alguns saudosistas gostam de atribuir ao time do Guardiola à alcunha de “herdeiro do futebol antigo” ou até “vingador da seleção brasileira de 82”. Pensam que o Barça é uma revanche contra o futebol feio e eficiente praticado hoje. Trate-se de uma falsa dicotomia: o caminho mais fácil para a vitória é ter a posse de bola. Além da maior possibilidade de marcar, manter a bola reduz as chances de gol do adversário e o cansa, pondo-o para correr atrás. O futebol do Barça não é parnasiano, alcança seus objetivos pelo caminho que dispõe. A beleza é uma feliz consequência.
Uma estratégia válida
Mas toda essa capacidade encantadora, todo esse talento mágico hipnotizante não provém do uniforme azul-grená. Mais importante do que o como, é o quê joga o Barcelona. Falamos de futebol, e se a sua graça, exuberância e a plasticidade seduzem, é sua imprevisibilidade, humana demasiada humana, que arrebata de paixão.
Só o futebol possibilita ao time inferior vencer mesmo jogando pior. No atletismo o melhor é posto a prova em todas as disputas: quem corre, salta, pula ou arremessa menos é pior. Simples assim. Em outros esportes coletivos como vôlei e basquete, o pior pode até vencer, mas só se jogar melhor, se obter as melhores estáticas. A seleção americana de basquete é a melhor, mas perde, pois joga pior. A diferença técnica presente no basquete e no vôlei se faz presente, no entanto, em um play-off  na melhor de três, cinco ou sete jogos.
O time de Messi perde: tudo é possível
  O Barça é o melhor time do mundo, joga melhor e... pode perder, só porque o jogo no qual é brilhante chama-se futebol. O Barcelona Fútbol Club não precisa de mais conquistas para sua consagração. O futebol precisa se renovar através das surpresas que se superam e fazem do certo o duvidoso e do impossível o destino. Isso possibilita ao esporte ser único, capaz de lições raras. Como outras expressões artísticas o futebol dá vida ao conhecimento, tornando seus ensinamentos mais valiosos que a própria verdade transmitida.
Nada mais didático do que uma belo fracasso aliás, porém tal aprendizado é mais proveitoso para quem tem a capacidade de se reinventar. É o caso do time de Pep, que se reinventou em 1999, em 2004, em 2007 e em 2009, só para ficar nas mudanças recentes. Em todos os casos saindo do ótimo para o fantástico, e deste para o melhor. Se dependesse daqueles saudosistas, meritocratas conservadores, o melhor time do planeta seria ainda o Sheffield United. Não havendo nem o Santos de Pelé ou a Laranja mecânica holandesa, com suas respostas inovadoras fomentadas por derrotas. Só os grandes sabem se remodelar assim, só os maiores não perdem a soberania após os insucessos.
Vencer sendo reconhecidamente mais fraco não torna a vitória mais vitoriosa? Não é o que ensina o mito de Davi contra Golias? Ou as histórias gregas nas quais homens usando a sapiência conseguem derrotar titãs e ludibriar deuses? A derrota faz do gigante menor ou da divindade menos sagrada?Que o Barça seja sempre espetacular, para que quando cair, tombe de pé, dando ao vitorioso um pouco da glória que já possui. Há grandeza em azul-grená suficiente para isso. Sem que haja o choro rancoroso dos conservadores.
Quem é devoto da meritocracia e justiça foi um pouco a forra na bola que Sergio Ramos isolou no Santiago Bernabeu, abrindo caminho para a classificação do Bayern. Prova que os deuses do futebol tem muito de humano nos seus humores: em um dia são alegres provocadores da ordem, para no dia seguinte serem justiceiros implacáveis.
Na copa de 54 primeiro  jogo ocorre o certo, no segudo a história

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Como era gostoso meu francês – Antropofagia, por acaso uma esperança para o Brasil


                Estudos historiográficos recentes tentam responder uma questão geográfica: “Por que os franceses invadiram o Brasil pela Baia da Guanabara?”. Abandonando o “riocentrismo”, percebe-se que não foi a beleza da região ou outro pormenor. A França Antártica foi fundada na beira da baia, pois a incipiente colônia era ignorada pelos lusos, mais interessados em São Vicente, Bahia de Todos os Santos e Pernambuco. O oportunismo francês foi o ponta pé inicial definitivo para o que viria a ser a cidade maravilhosa, um dos símbolos do Brasil. Séculos depois, o Rio de Janeiro teria a sorte de ser o porto escoador do ouro mineiro. O acúmulo de acasos geográficos fez do Rio uma cidade importante. O acúmulo de culturas faz do acaso um fator importante para a história do Brasil.
                Não sabemos se é por acaso ou não que o francês Jean, protagonista de Como era gostoso meu francês, chega por aqui. Sabemos que é por acaso que ele é confundido com um português e, por isso, é capturado e preso pelos tupinambás. O seu destino é a sentença dada aos inimigos: após oito luas, equivalente a oito meses, será devorado pela tribo. Jean, que quando preso pelos portugueses tinha um bola de ferro acorrentada aos pés, logo percebe que o cativeiro nativo é diferente: sem grades, sem correntes, sem confinamento. Não há distinção entre o livre e o condenado, senão o futuro. A sociedade tupinambá, sua prisão, o consome, em todos os sentidos.
                Não é só Jean que é consumido. O espectador é ainda mais rapidamente consumido pelos tupinambás. Pintos, periquitas e peitos saltam aos olhos, a flauta rústica e o idioma guarani surpreendem aos ouvidos (o francês, pelo contrário, não nos espanta, sintomático da submissão cultural). Entretanto não demora muito para naturalizamos a nudez explicita e as palavras estranhas. Como o francês Jean nos deixamos consumir.
                Em 1922, Oswald de Andrade lança o manifesto Pau-Brasil, que, parodiando o canibalismo tupi, prega a antropofagia cultural. Tal movimento consistia em absorver culturas e “vomitar” arte, mais cultura. Não era o que praticava as tribos do Brasil do século XVI, mas seus prisioneiros, sim, praticavam uma espécie de antropofagismo. A miscigenação cultural, com todas as ressalvas do preconceito e intolerância que percorrem toda a história do país, beberia muito dessa fonte ou comeria muito dessa carne.
                O pronome possessivo “meu” no título da película deixa claro que a perspectiva presente é a do nativo, que toma para si o estrangeiro. O exótico não é o “índio” é o europeu, mas o que prevalece é o gostoso. Uma escolha histórica da cultura brasileira: preferir o sabor à posse. O cineasta e historiador Paulo Emílio Sales Gomes falava que “Para o Brasil nada é estrangeiro, pois tudo o é”. Nada é ao acaso, desde que seja tudo gostoso, de preferência banhado em sangue e sensualidade.